Bonecas Diabólicas

29out10

Na opinião do pesquisador Carlos Primati, quando um filme é difícil de se achar ou considerado como perdido, existe um bom motivo para isso. Na maioria das vezes, o item procurado se revela uma decepção, não valendo o esforço da busca. Se causa frustração, por outro lado, pode resultar numa sessão regada a muitas risadas. Este é o caso de Bonecas Diabólicas (1975), outra produção da Boca do Lixo, muito falada e pouco vista. Não sei o que levou a Cinemateca Brasileira a programá-la na 34ª Mostra de Cinema de São Paulo, mas agradeço a empreitada. Dirigida por Flávio Ribeiro Nogueira, industrial que se meteu a fazer cinema nos anos 1970, pode ser considerada uma das produções trash mais divertidas realizadas no Brasil. Somos apresentados ao Professor Sindrome, um velho inventor que após um trauma sexual ainda na infância, cria um exército de mulheres andróides para substituir as fêmeas humanas. O bem intencionado professor distribuí então as bonecas a vários maridos insatisfeitos com suas patroas. Não irá tardar muito e essas andróides irão adquirir vontade própria, decididas a tomar o planeta para si. Com um ponto de partida interessante,  o filme não consegue desenvolver suas idéias por causa do roteiro sem pé nem cabeça. Os diálogos pseudo-científicos declamados pelos personagens fariam José Mojica Marins corar. A pobreza da produção também é embaraçosa. Os fundos de uma oficina mecânica se transformam num laboratório e champanhe é servida em copos de requeijão (outro momento que é puro Mojica). A comédia é sem graça – com direito a uma sequência que parece ter saído de um filme dos Trapalhões – e a nudez se resume a um topless de Arlete Moreira, grande musa da Boca. Mesmo com todo o amadorismo, nada irá preparar o espectador para quando uma das andróides é possuída pelo tinhoso, depois de pedaços de cérebro humano serem colocados em seus circuitos de memória. Sim, amigos, o negócio não faz o menor sentido. Mais tarde, o coisa ruim assume o controle das coisas e precisará ser combatido pelo assistente do Professor Síndrome. Para se defender do poder mental do cramulhão, o herói coloca um capacete de motoqueiro enfeitado com um cone de alumínio (antecipando Sinais em quase trinta anos) e com uma alicate, improvisa uma cruz. E assim, ao invocar Jesus Cristo Todo Poderoso, o mal finalmente é derrotado. Como vocês podem perceber, é uma dureza. Acrescente nisso a ruindade do elenco, a dublagem várias vezes fora de sincronia e uma trilha sonora tão alta que chega a doer os tímpanos em algumas passagens. Bonecas Diabólicas tem potencial para se transformar em obra de culto, tamanha é sua falta de virtudes, sua incompetência cinematográfica. Numa certa altura, a líder das andróides decide acabar com os humanos usando o Plano ZY3. Com certeza, Flávio Ribeiro Nogueira nunca assistiu Plano 9 do Espaço Sideral. Se tivesse, acharia em Edward Wood Jr. sua alma gêmea. Agora fico na vontade de ver os outros dois filmes que o Nogueira fez.



2 Responses to “Bonecas Diabólicas”

  1. Opa, Leandro, obrigado pela menção da minha pessoa! Hehehe, que engraçado você lembrar da minha “teoria”. Só quero dizer que ela NÃO vale para filmes brasileiros, pois sou obcecado para ver tudo que sirva para minha (nossa) pesquisa do “horror” nacional. Com isso, quero dizer que fiquei morrendo de inveja de você por ter visto esse filme, e acima de tudo quero agradecê-lo pelo texto interessante, que revela, enfim, que há elementos horroríficos no filme! Ele já estava na minha lista, mas eu não sabia dessa “participação especial” do Coisa-Ruim! Valeu mesmo! Também adorei o cartaz; eu não conhecia. Grande abraço e avise-me, se possível, se houver outra sessão desse filme!

    • 2 buchinsky

      Eu tinha perdido a exibição do filme naquela mostra Malditos Filmes Brasileiros, e não podia deixar de vê-lo agora. O que ficou faltando no texto, foi dizer que Bonecas Diabólicas com certeza, deve ter sido feito na cola de As Esposas de Stepford, que é do mesmo ano.


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