Em defesa do rei do plágio

29abr10

Agora que as lojas receberam o DVD de Avatar e o próprio James Cameron veio bancar o chato ecológico em terras brasileiras, quero dar alguns pitacos sobre o filme. Não acho que seja a última bolacha do pacote. Só que não vou deixar de admirá-lo pelo que é, uma ótima aventura de ficção. Posso criticar a sua longa duração ou então que ele não traz novidades na narrativa. Encaro agora Avatar como uma boa história de ficção old school e não como o grande épico que todos esperávamos. A primeira versão do roteiro trazia situações e personagens mais complexos. Quero ver as cenas extras que ficaram de fora, em especial as que mostram a vida na Terra no ano de 2154. No esboço inicial escrito por Cameron, as péssimas condições do nosso planeta moribundo consistiam num motivo mais do que suficiente para a exploração de Pandora, uma das luas do planeta Polyphemus.

O filme foi atacado por aqueles que o consideraram uma cópia de Dança com Lobos. Como se a oscarizada obra de Kevin Costner não fosse um variação água com açucar de Um Homem Chamado CavaloO Pequeno Grande Homem. São temas que se repetem e que costumam ser utilizados há séculos, não importa o gênero. Há Renegando Meu Sangue que Sam Fuller fez em 1956. Um episódio de The Outer Limits da primeira temporada (1964), com Robert Duvall interpretando um frio assassino que se infiltra numa raça de alienígenas para, no final, decidir que é melhor viver entre eles do que no meio dos homens. Na literatura, o estopim foi com O Último dos Moicanos de James Fenimore Cooper. No ano que vem dirão que a adaptação de A Princess of Mars é plágio de Avatar, sem imaginar que Cameron é quem buscou inspiração na obra de Edgard Rice Burroughs, entre tantas outras. Como nesta história da revista Time Spirits ou em Call Me Joe de Poul Anderson.

James Cameron sempre foi um reciclador de obras alheias. O conceituado escritor Harlan Elisson processou o cineasta por causa de semelhanças entre O Exterminador do Futuro e dois episódios de The Outer Limits escritos por ele. Mais tarde, Cameron assumiu a dívida para com Elisson, e o autor embolsou uma bolada das produtoras Orion e Hemdale. A conscientização ecológica em Avatar também pode ser encontrada em vários livros de ficção científica, como A Case of Conscience de James Blish, com alienígenas que se comunicam através de uma grande árvore e humanos explorando as reservas minerais de outro planeta. Um aspecto que me agradou bastante foram as semelhanças com Princesa Mononoke de Hayao Miyazaki. Já as reclamações quanto ao contra-ataque da natureza na forma de animais, não passa de má vontade de quem foi ao cinema com duas pedras na mão.

O que me interessa em Cameron e fez valor toda a espera, é que ele continua um diretor de mão cheia. Pode não ser o mais original, mas ainda sabe como elaborar um grande espetáculo e valorizá-lo. Concordo que Avatar não trouxe nenhuma surpresa para os fãs de Cameron - ao contrário de True Lies e Titanic. Mas aqueles que reclamam de uma suposta suavizada, esquecem dos temas trabalhados em O Segredo do Abismo, a peça da filmografia de Cameron mais em comum com Avatar. Também é  bom lembrar que o sujeito sempre foi um romântico, assim como seus heróis que se sacrificam para salvar as mulheres (e na’vis) amadas. Após mais de uma década afastado, James Cameron provou que ainda é o rei legítimo de uma corte repleta de falsos nobres. Desde a sua partida, o cinema de ficção e fantasia estagnou. Ele retornou fazendo tudo aquilo que é a sua marca registrada : aventuras de tirar o fôlego e profundas alterações no aspecto técnico da sétima arte. Com Cameron por perto, os efeitos especiais voltaram a ser especiais de verdade.



11 Responses to “Em defesa do rei do plágio”

  1. Ae, até que enfim! Embora eu não seja exatamente um fã de AVATAR, há que se dar o devido crédito ao autor do texto. :)

  2. Foi como disse George Lucas uma vez (after Joseph Campbell): só existem umas 30 histórias no mundo. O que muda é a maneira como se conta. De fato… por que então não condenar TODOS os diretores italianos extremos por realzarem suas versões de histórias pra lá de contadas, sem falar nos famigerados rip-offs? Oras! Porque é exatamente o que queremos ver! E Lucas tem razão. O próprio Star Wars não passa de uma roupagem nova para histórias já contadas, e não é por isso que o filme tem menos valor. Ao contrário, é por isso mesmo que tem mais valor. Cameron só poderia ser condenado se realmente refilmasse “Um Homem Chamado Cavalo” e ficasse uma bomba. Porque se ficasse bom ainda seria louvável. Por que não? No meio de tantas refilmagens idiotas, o que eu quero é ver uma refilmagem que me faça levantar da cadeira, como foi a de Tom Savini para “A Noite dos Mortos Vivos”.

    • 3 buchinsky

      Jack Kirby comeu bola por não ter processado o Luquinha.

  3. 4 Davi OP

    Na sua biografia (autorizada e que puxa o saco descaradamente) recente, Cameron chama Harlan Elisson de sanguessuga. Foi uma questão da produtora reconhecer o crédito de Ellison, não do Cameron. Por ele, o Elisson comia veneno de barata.

    • 5 buchinsky

      Com dinheiro na conta tudo se perdoa. Como aconteceu com Grant Morrison em relação aos Wachowski e Neil Gaiman com J.K. Rowling.

      • E Michael Bay & Spielberg com Robert S. Fiveson…

        • 7 Bruno C.

          Quem deu mole foi a Anne Gale Hurd, que numa entrevista no lançamento do Terminator 1 disse que o Cameron era fã do Elisson. Horas depois, a Gale percebeu a cagada que tinha feito pois se lembrou que além de talentoso, o Elisson também é um cara que processa qualquer um por qualquer coisa. Ela então ligou pra redação da tal revista exigindo (com a sua doçura característica) que essa sua resposta fosse retirada do texto final. Mas o repórter já havia comentado isso com Elisson que foi assistir ao filme. Aí ele processou a produtora, o Cameron, o papagaio do Cameron…hahaha

  4. 8 Laura

    Oba! Finalmente o texto sobre o Avatar!!

    • 9 buchinsky

      É que andaram dizendo que só tem figurinha no blog.

      • Opa! Vai pro “Dia da Fúria” também? ;-)

        • 11 buchinsky

          Logo mais eu faço um texto para o Dia da Fúria. Vou aproveitar algumas linhas aqui do blog, e me centrar mais na história em si. Também estou preparando outro, sobre um dos filmes do Sergio Sollima que faltou.

          E tu, Leopoldo ? Quando sai o The Killer ?


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