Prata Palomares

27mar10

PRATA PALOMARES (1972)

 

A procura por filmes até então difíceis de encontrar, pode resultar em uma grande decepção. Chega a ser prudente não ir com tanta sede assim ao pote, ainda mais se tratando de produções mais faladas do que vistas. O cinema nacional está repleto de exemplares cuja mítica se torna maior do que as suas qualidades. Snuff, Vítimas do Prazer (Claudio Cunha, 1977) com sua capenga tentativa de copiar o filão dos snuff movies demonstra bem isso. Mesmo filmes censurados durante os anos de chumbo não fogem à regra. República da Traição (Carlos Ebert, 1970) acabou vetado por acharem que poderia “levar as pessoas à prática de atividades subversivas”. Se o seu início promissor traz alguns dos momentos mais viscerais do cinema da época (um mix de Sganzerla com Samuel Fuller), o restante provoca tédio com o casal de fracassados espiões revolucionários vividos por Vera Barreto e Antonio Pedro que classifica a si mesmo como “um personagem de cinema e história em quadrinhos”. Enquanto ela passeia com seu amante pelas praias de uma cidadezinha de um país fictício (cujo plantel policial se resume a três guardinhas de fronteira), ele divide o seu tempo em tentar passar mensagens de cunho subversivo num aparelho de rádio amador e meditar enquanto toca trompete. Quando fica sabendo que está tomando chifre, desafoga suas mágoas massacrando indefesos lagostins na praia. República da Traição é aquela típica galhofa comum no Cinema Marginal. Mais indicado para quem tiver alguma curiosidade em assistir Antonio Pedro dançar vestido de odalisca.

 

REPÚBLICA DA TRAIÇÃO (1970)

 

O oposto acontece em Prata Palomares, feito dois anos depois por André Faria Jr., assistente de câmera em República da Traição. A saga de dois guerrilheiros que se refugiam na cidade de Porto Seguro (não aquela), é uma das obras nacionais mais interessantes do período, bem acima dos exercícios de alegorias fúteis que certos realizadores cometeram. Prata Palomares impressiona pelas cenas de violência e abordagem da religião, como a brutal tortura e morte de um líder popular dentro da igreja – então transformada numa enorme câmara dos horrores - ou a presença de Ítala Nandi como uma santa viva, que procura dar a luz o maior número possível de futuros salvadores. Há uma grande aproximação com o cinema de Glauber Rocha, assim como da obra mais radical de José Mojica Marins, O Ritual dos Sádicos / O Despertar da Besta. Junto de toda simbologia segue-se momentos de puro terror, com cabeças e membros decepados, línguas arrancadas, frenesi religioso. Outra comparação seria com o bruxo Alejandro Jodorowski, mesmo que isso não fosse proposital. Pouco comentado por admiradores do Cinema Marginal e menos ainda fora dele, Prata Palomares ultrapassa os limites do udigrudi, chega até ao cinema extremo e pode ser catalogado como parte do repertório do horror nacional.



10 Responses to “Prata Palomares”

  1. 1 Carlos Ebert

    Irônicamente, quem dirigiu a “galhofa”, fotografou “uma das obras nacionais mais interessantes do período”. Veja como são as coisa…

    • 2 buchinsky

      Sobre isso não há o que discutir. O Bandido da Luz Vermelha é uma obra-prima, e o seu trabalho de fotografia, irrepreensível. Não sou crítico, nem filósofo deleuziano. Apenas estou dando minha opinião. E realmente fica difícil não assinalar os vários pontos fracos de República da Traição. Obrigado por sua contribuição, Carlos.

  2. Esse vacilo da morte com arma de fogo no SNUFF do Reichenbach/Cunha é justamente o que mais me incomoda no filme. No mínimo, eles não entenderam o espírito da coisa, apesar de o cartaz do filme ter um assassino com faca na mão. PRATA PALOMARES é assustador e me faz ter ainda mais medo dessa época da política brasileira. Acho que era impossível não ser paranóico naquela época!

  3. 4 gunstrom

    CYBERBIO II
    httpp://www.herofactory.com.br
    Dois anos passaram desde então e o projeto Cyberbio só deu inicio com a compra de uma camera digital que permitiu uma melhor qualidade nos videos. Também ganhamos experiencia com uso de programas como after effects e outros. Para o próximo epsódio a série sofrerá uma mudança radical tanto nos efeitos como também no enredo. Mas tudo isso só será revelado futuramente.

  4. 5 Vlademir

    Leandro, o google não consegue encontrar meus textos mais antigos no zip.net (eu mesmo apenas os encontro através da caixa de edição). O link: http://olhar.implicito.zip.net/arch2009-07-01_2009-07-31.html#2009_07-28_01_37_32-128284073-0

  5. 6 Felipe M. Guerra

    É interessante (re)descobrir esse caldeirão de criatividade que era o cinema brasileiro dos anos 70 para ficar ainda mais revoltado com o que se faz hoje – e principalmente com comentários do tipo “Agora sim que os filmes brasileiros são bons, uma vez era só mulher pelada!”.

  6. 7 Vlademir

    No livro Cinema de Invenção (a bíblia do cinema marginal) o Jairo Ferreira fala bem mal do filme, mas gosto muito, ano passado escrevi um textinho em que menciono Makavejev, Jodorowsky e Terayama como algo próximos do universo de bizarrices e cores fortes de Prata Palomares (guardadas as devidas proporções, claro). Pena que indiquei para uns amigos, mas eles não gostaram, provavelmente por causa do conteudo fortemente político.

    • 8 buchinsky

      É verdade, o cinema do Shuji Terayama. Não me toquei na hora. Vlademir, não consegui achar seu texto sobre o filme.

  7. 9 sérgio alpendre

    surpreso que vc não gosta de Snuff… acho bom pra cacete. Prata Palomares é bem bom também.

    • 10 buchinsky

      O roteiro e a direção são fracos, e não dá pra levar a sério um filme snuff onde a vítima morre com uma arma de fogo. Ele está mais interessado no deboche e no cotidiano de quem fazia cinema na Boca do Lixo do que no gênero snuff em si.



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